A armadilha de Tucidides

Uma carta sobre mudanças.

Oi, como vai você? Eu desejo que essa carta te encontre bem.

O som da chuva parece o barulho de um trem que eu não vi partir. O Espírito Santo é um Estado cortado por uma ferrovia. A Estrada de Ferro Vitória-Minas. A linha do trem escreveu boa parte da história desse Estado.

Esta carta pode conter gatilhos de sofrimento emocional.

.mundos

As cidades de Esparta e Corinto, que habitavam as montanhas a beira-mar no sul da Grécia, já quiseram construir um muro para isolar Atenas. A cidade rechaçada seria atirada à fúria dos persas que já haviam atacado a região, chamada de Peloponeso. Para se defender dos persas uma liga militar se formou e fortaleceu. Isso aumentou o medo de Esparta e Corinto, que para não serem devoradas pelo centro político do ocidente se atiraram ao sangrento conflito que ficou conhecido como a Guerra do Peloponeso. Esse pode ser considerado o pioneiro dos conflitos que envolviam grandes blocos de cidades de potencial político e econômico. À impressão de que uma potência nova surgia e se destacava, enquanto a potência hegemônica entraria em colapso ao ponto de transformar as tensões econômicas em tensões bélicas, deu-se o nome de Armadilha de Tucidides, escritor poeta e guerreiro ateniense que documentou o conflito do qual participava. Tucidides criou o arquétipo de qualquer guerra que conhecemos.

Vi algumas publicações recentes que associam o fato histórico possivelmente ficcionado documentado por Tucidides com a situação de potencial guerra fria entre China e Estados Unidos. "Potencial Guerra Fria" é um termo que me soou redundante, uma aliteração teórica. Enfim, vi esse texto rodando por aí e ouvi também no podcast de que gosto muito Petit Journal. Depois que passei a ouvir as explicações dos conflitos mundiais com o professor Tanguy Baghdadi eu passei a ver o mundo de outra forma.

.afetos

Eu fiz trinta anos neste ano miserável. É um ano sobretudo cruel, um ano em que a gente lida diariamente com milhares de mortos. É terrível observar a negação da vida do outro tão de perto. É excruciantemente cansativo. Eu imagino, por todas as muitas histórias de guerra sobre as quais gosto de pesquisar, ouvir e conhecer, que não é exagero dizer que estamos em um estado permanente de guerra.

O sentimento de cada um sobre uma guerra pode ser diferente. Mas existe uma constante única em qualquer viés de pensamento. O medo. E ter medo nunca foi tão perigoso. E geralmente a gente tem medo é do perigo. É isso que faz uma guerra. Extrapola os níveis de injeção de medo e sensação de perigo de todo ser humano. Essa sensação é demonstrada diária e publicamente pelas pessoas. Todo mundo parece um meme de pinscher.

Dessa forma, fazer trinta anos me pareceu muito conflituoso. A minha juventude, potência hegemônica da idade, briga contra a realidade do tempo. As taxas não são mais as mesmas, o fôlego já não é mais o mesmo. E quem é que tem fôlego num tempo em que é difícil até mesmo de respirar. Perdi completamente o ar no clipe que a Billie Eilish dirigiu (e também dirigiu no clipe). Acho que foi um carinho pelo irmão Finneas na forma de um abraço quase sufocante pra dor que ele estava sentindo em algum momento.

E nós todos não sentimos dores a todo momento? Dores físicas, dores psíquicas. Vazio espiritual. Vazio existencial. É tudo um grande vazio. Um espaço onde não há ar. Mas num espaço sem gravidade em que pairam os corpos. Quem não vê é cruel demais. Quem vê o tempo todo já flerta com a insanidade. Com a dissonância cognitiva. E de repente estamos reclamando um com o outro. Um consigo mesmo. E causando mais dor para tentar aplacar a anterior.

Estou também de mudança. Enquanto escrevo isso ela parece já realizada e definitiva, Mas ela não é definitiva porque vai acabar logo logo. Vamos reformar o apartamento para o casamento. Vamos casar, eu e Andreia. E é uma grande mudança. Uma mudança significativa. Então essa mudança de agora é apenas um estágio, uma sala de espera, um momento em suspensão. Mais uma vez ao pequeno segundo da pedra de Sísifo antes de voltar. E tudo começar de novo. É um novo começo, afinal. Mais leve, dessa vez. Vai ficando mais leve ao passo que as costas e as pernas e os braços já não conseguem carregar tão firmemente caixas para cima e para baixo.

.polaroid

.tchau

Eu demorei mais do que de costume para escrever essa carta. Agradeço a paciência de vocês. Alguns amigos do Instagram e do Twitter que assinaram recentemente podem estar lendo essa carta pela primeira vez. Bem vindos, obrigado por assinarem.

Se vocês gostaram do que eu escrevo aqui ou se já leem com alguma frequência, por que não compartilhar essa carta com as pessoas que você gosta e acha que podem gostar dos ensaios aqui publicados.

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Penso em voltar em breve com um podcast que segue mais ou menos o mesmo ritmo desta carta. Lento. Mas que talvez possa falar com vocês e com os sentimentos de vocês. O Saturado, que já tem alguns episódios antigos disponíveis no Spotify (e qualquer outro agregador, eu acredito). Mas ele pode demorar a acontecer ou não acontecer de qualquer forma. Mas você já sabe disso. Afinal de contas eu sou o Wing Costa.