Sirenes no espaço

Albedo é o quanto um corpo reflete a luz que recebe.

Olá, espero que esta carta te encontre bem. Por aqui as noites estão mais frescas, o que permite uma tentativa de sono. O bom sono é importante, talvez você esteja lendo essas humildes letras antes de dormir. Ou ao acordar.

.mundos

Albedo é o quanto um corpo reflete a luz que recebe. A Terra refletia 39% da luz que recebia do Sol em 1976. O albedo é medido em porcentagem, apesar de seu nível ser representado com o conjunto de números de 0 a 1. A neve recém caída e bem branquinha tem o albedo de quase 100%, o que quer dizer que ela reflete quase 100% de toda luz que incide sobre ela. Essa é uma escala sem grandezas, ou seja, a neve, o solo, as nuvens e os planetas tem albedo. Albedo vem da palavra em latim Albus, que se refere a brancura.

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Ha 60 anos, às nove horas e sete minutos da manhã de uma quarta-feira, a nave Vostok I foi lançada ao espaço a partir de uma plataforma no Cazaquistão. Dentro dela ia o cosmonauta Iuri Gagarin, a primeira pessoa que viu o planeta terra do espaço.

De lá de cima, da órbita do planeta, o soviético de origem camponesa pode ver que a terra era azul. E redonda. Ele tinha 27 anos e se tornou uma celebridade. Após aterrisar em segurança de um salto com paraquedas de 7km, Gagarin rodou o mundo como uma das maiores referências em tecnologia espacial. Ele morreu anos depois pilotando um avião.

Iuri Gagarin é um herói nacional russo e era também um campeão soviético. As andanças do cosmonauta pelo mundo eram parte da estratégia da União Soviética de apresentar ao mundo superioridade tecnológica. E uma superioridade em carisma e simpatia também.

Esse era um plano que corria em paralelo ao plano dos Estados Unidos. País que representava e ainda representa os valores ocidentais. Isso me lembra a história dos russos e do lápis espacial, mas essa é conversa para outro dia. A esse conflito mundial de pressões tecnológicas, ameaças belicosas e competição cultural deu-se o nome de Guerra Fria.

.afetos

Em meio ao fenômeno recente de multiplicação de fotos e vídeos de avós vacinadas (mais avós que avôs, eu percebo), acompanhei a vacinação da avó da chef de cozinha Paola Carosella. A Paola é argentina, mas vive no Brasil há um tempo e tem um restaurante famoso. Eu não preciso apresentar a Paola Carosella, né? Ela publicou uma foto da avó recém vacinada. A avó que até onde eu consegui pesquisar é refugiada de guerra. Não descobri qual guerra. Acredito que da Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Na publicação de Paola Carosella a avó compara a pandemia de Covid-19 à guerra. Possivelmente a Segunda Guerra Mundial.

Quando começou esta pandemia minha avó falou para mim “Na guerra pelo menos a gente ouvia as bombas”.

Outro dia estava assistindo a missa pelo Facebook. Durante a reflexão do padre, pelo menos três ambulâncias invadiram o áudio do sacerdote. Calculei mais ou menos a rota para o hospital referência de Covid-19 no Espírito Santo. Passava na frente da igreja em que o padre celebrava a missa.

Aqui na nova casa, no Centro de Vitória, não há um dia sem as ambulâncias, que cortam o ar com sirenes ruidosas. As sirenes servem principalmente para ajudar a desobstruir o trânsito, fazer com que o tempo de deslocamento seja o menor possível para salvar a vida de quem está sendo transportado.

Ultimamente, com as ruas mais ou menos vazias (ou mais ou menos cheias, depende do nível de dificuldade em enxergar a situação crítica), as ambulâncias talvez nem precisem ressoar com muita frequência. Mas comecei a pensar nas sirenes das ambulâncias não só com o objetivo de desobstruir o tráfego, mas também para avisar a todos que a situação não está nada bonita. Que vivemos sim em uma guerra e apesar de bombas não assoviarem sobre as nossas cabeças, as sirenes fazem questão de deixar bem claro que não tem sido difícil viver. Tem sido difícil conviver com as notícias de jornais e de pessoas conhecidas, sobre quantos lutos vamos deixar de viver para viver um só luto permanente. O luto permanente que podemos chamar de guerra.

.polaroid

Além de marcar os 60 anos do primeiro ser humano no espaço, o ano de 2021 também marca que há dez anos, na quinta-feira depois do carnaval, Caetano estacionava seu carro no Leblon. Por esses dias a jornalista por trás da célebre manchete do jornalismo brasileiro, Elisangela Roxo, contou a parte dela da história. Iuri Gagarin foi para o espaço. Caetano ia para a terapia.

O texto para a Piauí é extenso e cheio de detalhezinhos sórdidos da vida de um jornalista em redações. Elisangela fala dos plantões, da vida pessoal, dos outros jornais por onde passou, dos pequenos diálogos internos que rondam a cabeça de um trabalhador cansado que produz conteúdo com o objetivo de alcançar uma métrica que vai se transformar em publicidade e depois em dinheiro. Nesses dez anos a publicação já foi absurdo, chacota, problema e hoje encontra a redenção. Caetano já se irritou, riu, desprezou, irritou mais um pouco, riu de novo e hoje abraça o caos que se tornou a fatídica estacionada. Lembro que a primeira vez que esse assunto surgiu neste ano foi a partir do próprio Caetano, ou de Paula Lavigne, companheira do cantor tropical. Paula Lavigne é o paparazzi do Leblon, filma Caetano de pijamas e pantufas estudando qualquer gramática. Todo dia alguém estaciona em um grande Leblon social e nós todos acompanhamos. Iuri Gagarin foi o primeiro homem no espalço. Caetano estacionou no Leblon. [2 notificações].

.tchau

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