O baile foi feito para curtir e para dançar

Uma carta funkeira sobre a cultura do mundo

Olá, como vai você? Espero que esta carta te encontre bem. Queria começar o texto de hoje agradecendo a todos que assinam e leem e respondem e compartilham a newsletter. Eu escrevo para compartilhar sentimentos, colocar em palavras algumas coisas que vejo e outras pessoas, como você que me lê, pode também ver por aí. E eventualmente tentar ligar sentimentos e coisas que acontecem na nossa mente e no nosso mundo. Assim, plural. De todos nós.

Se você gosta de receber na sua caixa de entrada assuntos dos mais diversos, textos como os das cartas que envio semanalmente, notícias e todo um universo de conteúdo e referências, recomendo que acesse a curadoria manual e cuidadosa de newsletters brasileiras gratuitas, da qual esta que você lê faz parte orgulhosa. A reunião de cartinhas foi feita pelo Rodrigo Ghedin, que mantém com muita coragem o Manual do Usuário. Lá a internet tem aquele gostinho da internet que eu tenho saudade (e quero fazer parte do movimento que vê com bons olhos trazê-la de volta, nem que seja um pouquinho.

Lá esta carta se chama Wing Posta. Ela já chegou a se chamar outras coisas que não lembro agora. [A Presente Epístola]. É curioso porque é o primeiro “projeto” que eu faço que não tem um nome definido. Eu chamo simplesmente de “as cartas”, ou “a newsletter”. Se você já usou as informações idílicas para puxar um assuntinho qualquer (tipo o dia e hora exatos do lançamento de Iuri Gagarin ao espaço ou o quanto nosso planetinha reflete de luz), como você chamou isso aqui? Gosto da participação de vocês porque cada nova assinatura na newsletter ou referência legal — tipo entrar na curadoria do Ghedin — me faz acreditar que estamos fazendo isso juntos. Não dá pra corresponder sozinho. Com você (vocês) é muito mais legal.

.mundos

No Brasil a gente tem um órgão chamado Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Ele é conhecido como IPHAN. Eu sempre falei “ifam”. Aqui no Espírito Santo a sede do instituto fica em uma escadaria que sobe para a Catedral Metropolitana de Vitória. Já passei muitas vezes por lá. Nunca entrei.

Durante algumas leituras que resultaria nesta carta que você lê agora, descobri que o ofício das paneleiras de Goiabeiras, aqui de Vitória, foi uma das primeiras práticas consideradas Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. A criação de panelas de barro, instrumentos próprios para fazer a tradicional moqueca capixaba, estreou a lista com a Arte Kusiwa, um sistema de representação gráfico próprio dos povos indígenas Wajãpi, do Amapá.

Na publicação do grande fotógrafo e amigo Fernando Madeira, o Congo. Uma mistura de música e dança e arte e brincadeira própria do Espírito Santo e muito presente em Cariacica, cidade vizinha de Vitória, onde cresci e local pelo qual nutro um amor muito grande. Na fotografia do Madeira, o personagem João Bananeira puxa o coro enfeitado que bate tambores e risca casacas e canta músicas de cunho religioso. Anciãos e crianças e homens e mulheres brincam a festa. O congo é bem imaterial do Espírito Santo.

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Em 1997 a União das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) criou a categoria Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. É uma lista de coisas incríveis que os seres humanos fazem e precisam, no entendimento da instituição, ser preservados para as próximas gerações. De dois em dois anos são escolhidas novas representações. O Kabuki é uma delas.

O Kabuki é um tipo de teatro feudal japonês. Eu aprendi em um dos vídeos mais incríveis da internet que depois de uma guerra devastadora o Japão era acometido de uma revolução cultural. O Kabuki surgiu num desses tempos de paz.

A apresentação teatral tradicional japonesa parece a tentativa dos atores de darem vida às pinturas japonesas que contavam históricas heroicas ou domésticas da vida no Japão feudal.

Eu me peguei assistindo há quase duas horas dessas peças outro dia. Não sei por que. Um grito japonês conhecido da internet (YOOOOO) vem do Kabuki. Uma flauta e umas madeiras japonesas batendo compõem o cenário sonoro. Foi pesquisando esse som conhecido na internet que cheguei ao Kabuki e a partir daí comecei a ver vídeos sobre os personagens representados costumeiramente neste Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

.polaroid

Um vídeo cortou minha timeline e se alojou bem em uma esquina da minha cabeça. O Heavy Baile não sai dali, com seus 150BPM. Heavy Baile é um coletivo multimídia de funk, de acordo com o portal Kondzilla. Eles produzem remixes de funk e vídeos de gente foda mandando o passinho. Estou hipnotizado pelo passinho. Meu amigo Rafael diz que o passinho é alta cultura. “É nível Balé Bolshoi”, diz o Rafael. O Ballet Bolshoi é a Companhia do Grande Teatro Acadêmico para Ópera e Ballet de Moscou. O Teatro Bolshoi, sede da Companhia, é um Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Já o balé foi formado por um grupo de crianças pobres que recebiam aulas em um orfanato em Moscou.

O passinho é o Balé Bolshoi brasileiro. Só que muito mais alegre. Porque o baile foi feito para curtir e para dançar.

Jonathan Neguebites de touca dá um banho de Brasil. O que ele e Celly IDD e todos os passistas do Brasil fazem deveria ser Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

.tchau

Veja só que carta cheia de suíngue e gingado que chegou até você. Eu fico muito feliz que consiga fazer cartas felizes, cartas em 150BPM. Estou entendendo melhor como fazer isso aqui. Se você chegou nesta carta através de um amigo ou link, considere assinar e receber essas pequenas não ficções na sua caixa de entrada.

Se você gostou do que leu e acha que um amigo também pode gostar, que tal encaminhar esta correspondência? Eu vou ficar muito feliz de chegar a outros e-mails.

Share Wing Posta

Eu sou o Wing e agradeço muito a todos que chegaram até aqui. Espero que a gente continue correspondendo.